QUINTO DIA
Ludmila Rohr
Vou descrever o nosso último dia em Rishkesh, pois amanhã às 5h da manhã e provavelmente com muito frio, estaremos deixando-a em direção à Haridwar onde pegaremos um trem para Nova Delhi. Escrever sobre isso já me deixa saudosa.
De manhã tivemos uma prática rápida de Hatha-yoga pois como o monge Gabriel estava conosco e aceitou o nosso convite para nos falar sobre algum tema, deixamos o tempo para ele, é claro. Então ele nos falou sobre a sua experiência com a Índia e sobre como a espiritualidade permeia tudo nessa cultura. Discorreu sobre os quatro pontos em comum para todo o povo indiano, independente da sua religião, que são: Karma, Maya, Nirvana e Yoga. Como que esses quatro conceitos estão arraigados nessa cultura.
Todo indiano sabe (não necessáriamente sabe que sabe) o que é Karma, pode até não ser um conceito construído com sabedoria ou mesmo com bondade, mas ele sabe que suas ações geram reações, que o seu Karma pode ser bom ou ruim, que ele pode ter méritos se agir corretamente; assim como Maya, que é a ilusão, esse conceito existe para as religiões indianas, o indiano cresce questionando o que é real, do que são as miragens produzidas pela mente; a compreensão do Nirvana é igualmente difundida, mesmo que seja compreendida de forma simples, como algo parecido com o “nosso” céu, ele sabe que precisa cessar a cadeia de renascimentos para se livrar do sofrimento, e o Yoga (não pensar em algo físico), a necessidade de se religar, de retornar ao “um”. O monge nos deu um verdadeiro presente logo de manhã, na nossa prática e por esse mérito, agradecemos de coração.
Depois disso, o enlouquecimento geral...as compras. O resto da manhã as 10 mulheres desse grupo praticamente surtaram de tantas coisas lindas que existem aqui. Os vendedores já nos conhecem, o grupo do Brasil, o grupo de Ludmila!...me diverti muito vendo como eles ficam pacientemente atendendo a todas ao mesmo tempo e fico pensando como deve ser a visão deles ao nosso respeito...nem consigo imaginar...somos tão diferentes de suas esposas, irmãs, mães, que provavelmente estão em casa, se vestem de forma tão feminina...engraçado pensar nisso. Eles já se despedem de mim dizendo: see you next year! Que os Deuses ouçam isso!
Voces lembram dos Rimpochês que encontramos no trem vindo para Rishkesh?
Pois é, como eles nos convidaram para visitá-los em Dehradum (cidade próxima a Rishkesh) em seu mosteiro, lá fomos nós, alugamos um ônibus e viajamos 1,5h até um lugar lindo, diferente do hinduísmo, um lugar dedicado à prática Budista é silencioso e arrumado nos mínimos detalhes.
O monge Gabriel nos acompanhou, então tivemos um mérito grande, pois visitamos um monastério Budista com um monge nos esclarecendo amorosamente sobre que precisávamos saber. Esse monastério tem uma estátua enorme do Buda e uma estupa linda. Estupa é uma mandala em três dimensões, um verdadeiro relicário onde se guarda preciosidades ligadas a aquele monastério. Os praticantes andam ao redor dela, girando rodas de oração e espalhando a energia preciosa de mantras para todo o planeta. Parecia que estávamos em uma cena de um filme...aquelas pessoas andando e repetindo orações...é claro que viramos atração turística também, todos nos olhavam, velhinhos tibetanos...tiramos muitas fotos.
Nesse lugar, pudemos refletir sobre algo muito triste que é a situação do Tibet. Muitos tibetanos ou filhos de Tibetanos vivem aqui, exilados do próprio país para poderem ter acesso ao seu próprio idioma e religião, já que lá no Tibet, eles são proibidos. No final da nossa visita ao monastério fomos recebidos pelo Rimpochê (do trem!) em seus aposentos.
Generosamente nos ofereceu damascos secos, nos abençoou e nos falou da sua alegria em nos encontrar no trem e de nos ver outra vez. Foi um encontro muito afetuoso que tocou no coração de todos.
Voltamos para o hotel e agora faz tanto frio que contrasta com o nosso coração aquecido. Vou dormir, pois amanhã o dia começa muito cedo!
É incrível pensar que nem estamos no meio da viagem e tantas coisas já nos aconteceram!
Quero encerrar agradecendo a todos os emails que tenho recebido. Obrigada por todos os votos de felicidade. Estamos sendo felizes, e podemos ser mais felizes ainda quando descobrimos que a felicidade é simples e não precisa de nada para acontecer, basta abrir o coração e sentir gratidão por tudo que a vida nos oferece. Esse me parece um grupo de pessoas felizes!
Ludmila Rohr