NO TREM PARA RISHKESH
Ludmila Rohr
(Esse relato foi de um dia anterior ao relatado do segundo dia)
Sinto-me em dívida em relação ao dia de ontem, pois tantas coisas aconteceram e não pude escrever, que tentarei fazer isso agora sabendo de antemão que será muito difícil, pois, escrevo de um trem que embarcamos às 6h da manhã em direção a Rishkesh, e em um trem indiano muitas coisas acontecem.
Rishkesh é a cidade que mais amo na Índia, e sinto como se estivesse voltando pra casa. Falarei sobre Rishkesh depois. No Brasil hoje é quarta-feira de cinzas e aniversário do meu filho Caio e, a ele quero dedicar esse dia, ele ama Rishkesh e com certeza lembrará de cada momento que viveu aqui.
Ontem vivemos no início do dia uma experiência tão intensa por sua suavidade que certamente não a esqueceremos jamais. Fomos ao “Lotus Temple” em Delhi, que é um templo da fé Bahai, mundialmente conhecido por sua arquitetura. Ele tem a forma de uma imensa flor de Lótus em mármore branco, e é de uma beleza impressionante. Dentro do templo somos orientados a permanecer em silêncio, essa é a prática desse templo.
O templo é muito grande e cada pessoa do grupo encontrou o “seu” lugar e pôde viver a “sua” experiência interna provocada naturalmente pelo silêncio. Essa é uma prática difícil, pois a nossa mente turbulenta e barulhenta precisa ser atravessada para alcançarmos algum tipo de serenidade ou experiência espiritual, mas acho que os profetas Bahais nos ajudaram e nos abençoaram, pois enquanto estávamos lá três mulheres com vozes de anjos interromperam o silêncio com cânticos devocionais que de tão sublimes, pude sentir que atravessavam o meu corpo e como as “trombetas de Jericó” poderiam dissolver muralhas da minha alma.
Tive então, nesse momento uma experiência incrível com o poder do silêncio e o poder do som correto e isso imediatamente me levou a refletir sobre o quanto somos barulhentos e quanta energia desperdiçamos com palavras e falas sem significado, muitas vezes violentas e outras tantas negativas, que atraem para as nossas vidas energia de vibração semelhante. Tive a certeza que, guardando as diferenças individuais, todos foram de alguma forma “iniciados” na Índia naquele momento. Cada rosto, cada olhar tinha um brilho especial naquela hora, e foi assim que iniciamos nossa longa e com certeza linda jornada nesse país com um povo que nos acolhe tão amorosamente.
Paro um pouco de escrever e converso com Beth e Lili que estão sentadas ao meu lado no trem. Sentimos essa necessidade o tempo todo, de conversar sobre as experiências internas, como se precisássemos nos certificar que o que estamos sentindo é de verdade. Beth é uma linda americana que veio dos EUA para se juntar ao nosso grupo e me desperta uma curiosidade imensa saber como ela percebe essa viagem e o povo indiano, ela está completamente encantada, se diz sem palavras e eu estou muito apaixonada por ela, por sua coragem e confiança de vir de tão longe e se juntar a nós, fico muito grata ao universo por tê-la colocado ao meu lado nessa viagem. Ela trás um olhar muito rico para todas nós e imagino que depois dessa viagem, ela experimentará uma espécie de solidão, pois não será mais a mesma. Lili é de Brasília e conhece muitos lugares do mundo, e está muito tocada com essa experiência. Ela é uma pessoa muito divertida, interessante e foi especialmente tocada pela experiência que tivemos no templo Sikh que visitamos em seguida. Enquanto escrevo sobre elas me dou conta de como é impossível escrever sobre a conversa que estamos tendo, pois, elas me falam tão emocionadas, elas me falam com os olhos, o tom da voz muda, todo o corpo é usado para essa expressão, não tenho a habilidade para transformar em palavras, sinto como se estivesse traindo-as, pois não consigo ser fiel às suas expressões e por isso peço desculpas.
Enquanto escrevo (lembrem-se que estamos no trem para Rishkesh), sou interrompida inúmeras vezes pelo “serviço de bordo”, e quem já andou em um trem indiano sabe do que eu estou falando. Essa é uma experiência única!
Os funcionários que nos servem são tão gentis e atenciosos que nos deixam envergonhadas da nossa arrogância e do nosso conceito prepotente a respeito do “servir”. Percebo a nobreza que existe no “servir” quando ele é feito de coração, não há humilhação, é digno...nobre...lindo!
Acabo de saber que no nosso vagão está viajando uma criança que é uma encarnação de um rimpoche (que significa “precioso”). Essa criança nos chamou atenção logo no inicio da viagem...olhar profundo como um oceano tranqüilo, rodeada de adultos...fomos perguntar e confirmamos...somos mais uma vez abençoados nessa viagem, ao nosso lado, dois rimpoches (um ainda no corpo de criança e um outro adulto).
Acho que foi uma péssima idéia trazer o laptop nessa viagem, não acabarei de escrever nunca, queria falar sobre o dia de ontem durante a viagem de trem, mas as coisas que acontecem aqui são impossíveis de serem descartadas, preciso escrever ....estou chorando muito nesse momento...o nosso querido guia Guilherme, solicitou amorosamente ao rimpoche que nos abençoasse e ele nos atendeu!!! Abençoou um por um do nosso grupo e cada um teve a sua experiência e, claro que eu só posso falar da minha, que foi de muita emoção, o sentimento de ser muito pequena, de não saber de absolutamente nada invadiu minha alma e tomou o meu corpo, tremia de emoção e senti vergonha quando ele perguntou se eu era uma professora de yoga. Não sou “nada”, essa é uma constatação e vem acompanhada de uma sensação maravilhosa de leveza. Não sou nada!
Me faltam palavras para descrever as nossas experiências, sinto que fico repetitiva, queria ter um acervo maior de adjetivos, infelizmente não os tenho.
A nossa visita a um templo Sikh foi verdadeiramente impactante. Esse é um templo que fica na Old Delhi e tem grande movimento e práticas de cantos devocionais muito bonitos. Não sabemos o que está sendo cantado, não conhecemos o profeta deles, mas somos tocados do mesmo jeito. No templo Sikh tem uma cozinha grande em que refeições populares são servidas, entramos na cozinha...foi uma loucura...tiramos muitas fotos, que coisa!!!! Lili sentiu que esse era um lugar muito conhecido, foi especialmente tocada por essa experiência.
Na maior mesquita mulçumana da Índia, ainda na Old Delhi, onde Rapha,viveu um momento espiritual muito íntimo, pudemos subir no alto do seu minarete (uns 50m de altura) e admirar do alto a sua imensidão e imaginarmos como aquele lugar fica lotado em momentos sagrados como em um Ramadã. Muito forte esse lugar (preciso contar que Hildeth deu um show subindo as escadas do minarete).
O nosso primeiro dia em Rishkesh contarei amanhã! Essa é uma cidade muito linda! Conhecemos o monge Gabriel, que é brasileiro e vive num mosteiro aqui na Índia há 4 anos, mas sobre isso contarei depois.
Agora estou cansada e feliz!
Ludmila