VIGESIMO PRIMEIRO
Ludmila Rohr

Namaskar!
Tentarei falar sobre como está sendo esse dia... Meu Deus!!!

Estou agora (17h) em um hotel que fica no alto de uma montanha a 2575m de altura, sua arquitetura é muito linda e, está muito frio...acho que esse é um lugar muito especial para se estar abraçado e quentinho com quem se ama....falarei muito mais sobre ele depois, começarei pela manhã.

Depois de não conseguirmos voar, uma certa frustração fica no ar, apenas observo...acho muito humano isso, precisamos apenas perceber o que motiva os nossos humores, para que eles não nos tomem de assalto, tudo fica mais fácil quando temos consciência do que está no afetando, quando não a temos, saímos projetando pra fora de nós, culpas e responsabilidades que as coisas nem as pessoas, em si, não têm.

Tem uma parábola indiana que gosto muito que sempre me ajuda com as minhas transferências. Cuida para que eu possa ser mais justa com o outro e saber o que é meu e o que é do outro. "Conta-se que na entrada de uma pequena vila morava um sábio...e um viajante chagando à vila lhe pergunta: Como são as pessoas daqui? O sábio responde com outra pergunta: Como eram as pessoas de onde você veio? O viajante diz: Eram maldosas, invejosas, de fato estou me mudando porque preciso estar com pessoas boas. O sábio então responde: As pessoas daqui são como as de lá. E o viajante desiste dessa vila. Outro viajante chegando a vila, faz ao sábio a mesma pergunta , e o sábio lhe responde da mesma forma. O viajante então diz: eram pessoas boas, muito atenciosas, amigas, sentirei muito a falta delas . O sábio responde: as daqui são como as de lá.. ..Penso que, antes de julgarmos alguém ou algo, deveríamos olhar honestamente para dentro de nós...

O Nepal é um dos sete países mais pobres do mundo, 20% da sua população vive em zonas urbanas, 80% na zona rural. A renda per capta é de US$ 300/ano!, 40% da sua população tem até 15 anos de idade, mas ninguém morre de fome. O povo nepali é muito trabalhador, vinte mil nepalis deixam o país todo mês para trabalhar em outros países. Como disse antes, eles são guerreiros, e são contratados por exércitos da Inglaterra e Índia para lutar. Eles também são a 2ª maior potência hidroelétrica do mundo (perdem para o Brasil), mas, no entanto, sofrem racionamento de energia (todos os dias as luzes se apagam de 17 às 21h).

No caminho para Bakhtapur, que significa "cidade dos devotos", tivemos que sair da estrada, pois havia uma manifestação política bloqueando a passagem (normal). Chegamos a Bakhtapur que tem construções em madeira impressionantes e bem características, e aí, o pessoal enlouqueceu! Tudo é muito exótico e desperta a nossa curiosidade, nem preciso dizer que as mulheres compraram muuuito! Esse é um grupo muito especial, basta chegarmos a Bakhtapur para todas se deixarem encantar por essa cidade medieval que parece estar parada no tempo.

Passei por três experiências muito legais aqui: a primeira foi ter sido encontrada pelo meu guia do ano passado, Ramesh, ele veio falar comigo, muito feliz. Não o esqueço, porque ele é um ativista maoísta jovem e muito culto. Ele me atualizou a respeito da situação política do seu país, adoro isso...lembro muito do meu pai...ele era um ativista comunista, adora histórias políticas, e eu cresci ouvindo muitas delas...simplesmente adoro!

A segunda experiência especial se deu no momento em que eu estava numa loja (comprando) e surgiu uma banda tocando...era um noivado na casa ao lado da loja, o noivo estava chegando na casa da noiva com toda a sua família..fiquei ao lado do pai da noiva quando este recebia o noivo!!!!!

Cheio de rituais...fiquei toda emocionada e arrepiada, a banda tocava e eu olhando, a cidade olhando.... é um acontecimento.

A terceira...estávamos almoçando no alto de um prédio secular, quando ouvimos lá embaixo sinos, tambores...pessoas cantando e seguindo em fila como em uma procissão. Os homens na frente, as mulheres de vermelho atrás e muita música. Soube que era o último dia de algo que nos parece uma trezena?! São trinta dias de orações e esse era o último dia...muito legal! Acho que os Deuses nos mandaram isso para que nos esquecêssemos do Everest...deu certo...Quando saímos de Bakhtapur estavam todas felizes.

Aí começa a nossa aventura para Nagarkot, que significa "cidade fortaleza", um pequeno vilarejo no alto da montanha, de onde escrevo agora, absolutamente congelada!!!! Para chegarmos, pegamos uma estrada tão linda, com muitas plantações de trigo e mostarda, muitas árvores, florestas....as montanhas ao lado...subíamos, subíamos, muitas curvas de víamos lá embaixo, subíamos... e nunca chegava! Tão alto, tão frio...meu quarto é todo de madeira, lembra uma cabana, bem amplo, com uma cama enorme e um banheiro que estou olhando e sem coragem de tomar banho. A eletricidade só chega as 18h e ainda são 17:30h, estamos no meio de muitas montanhas em pleno Himalaia...acho que vamos demorar um pouco para dimensionar essa experiência. Por enquanto ouço algumas pessoas se queixarem de que sentirão frio ou até mesmo, outras assustadas com o fato de estarmos aqui, no meio de nada ou...no meio do TUDO!!!!

Estou realmente curiosa a respeito de como essa noite se processará, de como será para cada uma estar imersa em tudo isso, como tudo mexerá com essas mulheres e comigo também. Essa é uma experiência nova pra mim e, nesse momento o silencio é tão imenso que parece que estou no fundo de um oceano, ou...no meio do céu!

Com certeza escreverei muito sobre essa noite...agora tenho que desligar o computador (economizar bateria) e esperar a noite, a luz, mais frio, a mulheres... somos só nós agora, entre as montanhas e o céu!

Muito silêncio...Ommmmm...
Ludmila Rohr

Continuando.....

Fizemos uma "Roda das Deusas" após o jantar...seis Deusas permaneceram para essa roda iluminada por velas em pleno restaurante do hotel...Daniela, Isabel, Fernanda, Renilda, Lili e eu...tiramos cartas de Tarô...perfeitas como sempre. Nossas histórias ou nossos momentos foram expostos ali. Não sei por que ainda me impressiono, pois sempre é assim, perfeito... Agora são 22:20h, todas foram dormir após o jantar....não consigo pensar em dormir...não consigo acreditar que estou aqui...no Himalaia.



Não escuto nenhum som....e hoje é dia de lua cheia aqui!! Um frio imenso....estou na minha cabana tomando um vinho e escrevendo... Vocês podem imaginar o que é uma Lua Cheia aqui no Himalaia?? Acho que não... nem eu que estou aqui posso acreditar no que eu estou vendo....não posso acreditar que estou aqui...isso é absolutamente surreal.

Vou tentar falar um pouco...

Silêncio profundo quebrado pelo crepitar da madeira na lareira...

Lua cheia clareando a noite que se descortina em um vazio imenso, porque nada nos alcança aqui... nada nos alcança...exceto Dedé (Latitudes), nosso Zeus, que ligou pra nos desejar boa noite! Tudo é surreal aqui, até receber uma ligação de SP, do Dedé!!! Obrigado Dedé, nós estamos ótimas e bem cuidadas e, você é ótimo!.

Sinto uma paz tão grande, nada me preocupa...qualquer preocupação aqui me parece tão tola...estamos perto de céu, o que poderia acontecer aqui, que não tivesse realmente que acontecer? Parece-me muita arrogância pensar que alguém pode controlar algo em um lugar como esse. Sinto que tenho apenas que me entregar, e sentir o que uma experiência dessas pode me dar.

Um lugar como esse, é um lugar de Rendição...e percebo claramente como é inútil lutar contra isso...render-se é bom...é prazeroso...é como uma boa morte que nos tira de qualquer esforço...que venha!

Esse é um estado de relaxamento que produz um prazer enorme...então me pergunto, porque tanta resistência em se entregar? Porque vejo pessoas preocupadas com detalhes tão ínfimos, ou apegadas a tantos conceitos e padrões, quando só temos o céu como testemunha? Porque nosso ego não pode se render um pouco a sua insignificância e ver que existe algo infinitamente maior...inclusive que a nossa existência é tão fugaz diante de algo tão imenso, que nada mais importa...

Só a lua importa...ela continuará além da minha existência...

As montanhas que sempre estiveram aqui...tão silenciosas...imperiosas...elas importam, minhas ridículas necessidades...estas, não importam...elas nem de fato são necessidades...acho precisamos acreditar que elas existem para sentir que temos importância... não damos conta da nossa insignificância...

O magnífico seria no dia em que sentirmos que perdemos a importância...nesse dia seremos um com o todo, seremos nada e tudo...poderemos sentir que estamos unidos a um lugar como esse, e não,"em" um lugar como esse.

Meu vinho acabou...muito tarde...muito frio...vou dormir...

Com muito amor,
Ludmila Rohr

Continuando...

Quero desejar a todas as pessoas que amo, que um dia possam estar em um lugar como esse...

Céu azul, muito frio, sol brilhando e vejo montanhas, muitas montanhas brancas enfileiradas na minha frente, tão perto, tão longe...que benção, isso não se parece com nada, exceto com isso mesmo...Himalaia. Imensidão, vazio...acima de nós, nada...

...Depois do café as montanhas estão mais nítidas, brancas, enormes...será que sabemos o quão especial é esse momento? Três picos com mais de 8000m estão exatamente à nossa frente!

Difícil a despedida desse lugar, sair e deixar a vista das montanhas brancas e azuis para trás foi complicado, mas...saímos de uma forma muito especial, fizemos uma pequena trilha à pé de quase duas horas, em meio ao povo que vive nas montanhas, vendo o jeito que eles vivem, as crianças brincando, mulheres trabalhando, mulheres cuidando de bebês (vimos uma, fazendo Shantala e outra dando banho!), cabras, búfalos, as construções bem típicas com seus telhados de palha, plantações, uma vista no fundo de emocionar...o Himalaia de um lado e reservas de florestas do outro...muitas pessoas vivendo de uma forma absolutamente simples e tão tranqüilas, sem posses, sem pressa, e com o Himalaia como testemunha....

Achava que essa estava sendo a caminhada mais linda que fiz na vida, até que isso se confirmou...encontramos um homem ocidental, ele estava andando e falando com as pessoas do lugar, fomos conversar com ele...ele é um neo-zelandês (Mark Annand), que faz parte de uma organização internacional que arrecada fundos para construção de escolas em Nagarkot...incrível! Ele falou com tanta paixão sobre seu projeto, mostrou a planta na nova escola que eles estão angariando fundos...fiquei tão emocionada...caí em prantos...Beth estava comigo e presenciou o meu choro...senti tanta vergonha das minhas preocupações egoístas, senti tanta vergonha diante daquele homem apaixonado pelo seu sonho, por uma causa...sonhos como esse fazem a diferença, crianças serão educadas e nem precisa de tanto...famílias terão suas vidas transformadas... Quero divulgar a webpage dessa organização e peço que quem ler isso, passe adiante...(www.ems.edu.np), eles contam com ajuda das pessoas de todo o mundo.

Voltamos para a estrada visitamos mais um templo hinduísta e Budista (ao mesmo tempo) do século 17, e quando lá estávamos vimos um ritual de uma família que parecia de agradecimento, eles sacrificaram um búfalo, cantavam e andavam em volta do templo, em celebração...muito forte. A idéia de sacrifício de animais choca algumas pessoas, mas é importante não julgar sem conhecer historicamente essa prática que é descrita em muitas religiões, inclusive no cristianismo. As pessoas comem animais, esses animais são mortos...não vamos julgar aqueles que oferecem religiosamente animais aos seus Deuses, por mais que não nos pareça "civilizado".

Chegamos de volta a Kathmandu, parece que é a nossa casa, esse hotel é como a nossa casa...hoje à noite teremos um jantar oferecido pela operadora daqui, teremos dança e música...eu estou aqui escrevendo, mas todas as outras estão na rua...

Dia muito forte...

Tudo de Om para todos vocês...

Ludmila Rohr