DECIMO QUINTO
Ludmila Rohr

Namaskar!

Manhã tranqüila sem programação. Deixei para levantar às 9h. Demos uma boa recuperada. As meninas me contaram que o show de luzes e som nos templos de Khajuraho foi muito lindo. Parece que gostaram muito.



Viajamos (agora de avião) para Varanasi, cidade que se chamava Benares e que é sagrada para os indianos de muitas religiões. Esse vôo dura 40 minutos e percebo que guardei um certo trauma do ano passado, em que tivemos que fazer esse trecho por terra e levamos 12h em um projeto de estrada e, à noite. Celebrei quando vi o grupo no avião. Os funcionários da operadora aqui lembraram de mim e já foram, desde que chegamos, me enchendo de garantias que nada aconteceria de errado outra vez.

Varanasi é uma cidade incrível, pois todo Hinduísta deve vir pelo menos uma vez aqui e se possível, deve morrer aqui, pois teria suas cinzas jogadas no Ganges o que reduziria a necessidade de reencarnar. Isso me leva a grandes reflexões a respeito do me apego à vida, e se existe em mim um real desejo de diminuir as minhas "vidas", mas não as desenvolverei agora.

O Ganges é o centro dessa cidade. As pessoas e a cidade giram em torno desse rio sagrado e se eu tivesse que escolher uma só cidade pra conhecer na Índia, acho que seria essa. Ela é inexplicável, é assustadora, impactante e inesquecível. Muita gente, muitas cores, muito movimento e uma segurança tão contraditória (nos nossos padrões). É como andar na praça Castro Alves em pleno carnaval na Bahia, mas sem medo...isso mexe com nossos padrões, pois quebra muitas "verdades". Acho que é isso que Varanasi faz com a gente...rompe paradigmas, desorganiza verdades e inevitavelmente nos faz questionar a nós mesmo. A outra opção além dessa, é rejeitar Varanasi, se você não suportar esse questionamento, não suportará Varanasi.

Fomos direto para Sarnath, local onde Buda após a iluminação ensinou pela primeira vez. Nesse local Buda falou sobre as Quatro Nobres Verdades, ensinamento básico do budismo. Buda diz que: 1. O sofrimento é inerente à vida; 2. Que sofremos por que desejamos; 3. Que existe a possibilidade de cessar esse sofrimento; 4. O caminho óctuplo nos tiraria dessa vida de sofrimento. Buda falou sobre a possibilidade que temos de escolher entre uma vida Dharmica ou Karmica. Simples assim....os ensinamentos de Buda são diretos, limpos e claros...

Esse lugar é um presente, um silencio e tranqüilidade impressionantes. A serenidade própria do budismo. Lindo e tranqüilo. A estupa de Sarnath data de 2 séculos a.c., e está ao lado de ruínas de um antigo monastério. Demos três voltas na estupa em oração e depois sentamos silenciosamente no gramado ao lado.

Nesse momento um lindo pôr-do-sol acontecia. Aqui na Índia, não sei se já falei antes, o pôr-do-sol é completamente rosa. Aproveitei para agradecer por tudo e por qualquer coisa. Meu coração estava tão transbordante de gratidão que me deixei levar por ela. Como sou muito corporal, meu corpo precisava agradecer...fiz a Suryanasmaskar (saudação ao sol) nesse lugar!

Nem podia acreditar naquilo...tanto a agradecer...aquele sol lindo, aquele lugar tranqüilo...como me sinto feliz e abençoada (Tati com certeza você me acompanharia, cheguei a sentir sua presença, isso em breve acontecerá!) Saimos dessa serenidade protegida dos ambiente budistas e entramos no caos que é essa cidade, fomos de Rickshaw, atravessando o centro da cidade (filmei, só assim vocês irão acreditar), esse caminho é simplesmente um mergulho na nossa mente turbulenta e barulhenta, fomos direto para o Aarti (ritual do fogo, falei dele em Rishkesh) que acontece todos os dias nos Gaths nas margens do Ganges. Esse é celebrado por sacerdotes Bramanes e é acompanhado por muitas pessoas. Fogo, incensos, sinos, cantos...muito incrível! Não tem como não ser tocado. Todas ficaram muito emocionadas.

Sempre sinto que em Sarnath sou tocada no coração e na mente, e no aarti, é o meu útero que é tocado. Essa é uma experiência visceral, vai nas entranhas, nos causa arrepios, as lágrimas brotam...todas saem em um estado semelhante ao torpor..

Vamos dormir enebriadas...
Ludmila