DECIMO QUARTO DIA
Ludmila Rohr
Namaskar!
Khajuraho é impressionante! É uma pequena cidade, fora de qualquer grande circuito e funciona em torno dos seus templos que estão absolutamente conservados e tombados como patrimônio da humanidade. São inúmeros templos em um lindo parque gramado. Essa cidade se tornou mundialmente famosa por causa das imagens eróticas do Kama Sutra esculpidas nos seus templos em arenito do século XI. São lindas imagens em detalhes impressionantes de posições sexuais em meio a imagens de Deuses e outros símbolos. Não consigo entender exatamente o que elas fazem aqui e por que foram esculpidas, mas são lindas. Nosso hotel como sempre muito gostoso e como a cidade é muito pequena fazemos um estardalhaço, comerciantes e motoristas de rickshaw ficam nos perseguindo o tempo inteiro e é claro que acabamos caindo em tentação nas compras, outra vez! Normal... as meninas estão se divertindo muito, lideradas por Fernanda e Lili que dão mil ordens aos indianos e eles as adoram.
Enquanto escrevo agora do meu quarto, quatro indianos estão aqui falando pra caramba e eu não estou entendendo nada. Tudo porque eu reclamei que minha TV não estava funcionando. Eles estão aqui tão prestativamente tentando resolver meu "problema" que começo a ficar com vergonha de ter reclamado. Eles não me parecem pessoas práticas, dentro de um parâmetro que conhecemos. Parecem um tanto confusos com questões simples relativas à praticidade e ao que chamamos de lógicas. Quando damos muitas consignas, eles ficam confusos e nunca dizem não, acho que não sabem dizer não, mesmo que não estejam entendendo nada. Chegaram mais dois aqui no quarto, agora são seis! E eu nem quero de verdade a TV!
Mudaram-me de quarto! Em 10 segundos carregaram todas as minhas coisas e eu estou no quarto ao lado...meu Deus!! Todos se foram e ficou um aqui, testando os canais...ele me diz que lembra de mim dos outros anos, vocês podem acreditar nisso? Ele diz isso sorrindo, todo feliz e aperta minha mão, tão orgulhoso, como se fosse uma honra. Digo que gosto muito do país dele, e ele fica mais feliz ainda! Não sei como descrever uma experiência dessa. É surreal! Acho que é isso que me faz querer voltar aqui outras vezes e fico torcendo para que as pessoas do grupo possam experimentar isso de alguma forma, já que as experiências são pessoais e intransferíveis. Experiências como essa só são possíveis quando estamos desarmados e inteiros naquele momento, como se nada existisse, pois assim o percebemos com o coração.
Aproveitando todo esse vendaval aqui no meu quarto, quero falar sobre algo que tem me deixado muito apaixonada, que é o balançar de cabeça dos indianos. Pode parecer bobagem, mas é uma coisa muita linda! Nós temos dois movimentos comuns de cabeça, quando afirmamos algo ou quando negamos algo, eles tem um outro , que balança a cabeça para os lados, tão lindo, que eu traduzo como: "pode ser" ou "não entendi nada", ou até mesmo "como é que é?", muito fofo. Gui (meu parceiro nessa viagem) já absorveu esse movimento, ele o faz o tempo inteiro, e eu estou treinando...
Voltando a Khajuraho...assim como no ano passado, fizemos um breve círculo de meditação de conexão das energias do ventre com o coração. Esse é um lugar de muita energia sexual, energia vital, então nada melhor do que nos conectarmos com ela e aqui.
Ao lado dos templos de Khajuraho (propriamente ditos), entramos em um templo que fica ao lado, o Gui não conhecia, mas eu o adoro, pois ele ainda é templo, não é um lugar apenas turístico, as pessoas vão lá fazer seus pujas. Soube em 2006 que ele é um templo que protege as mulheres das "doenças femininas". Vimos algumas mulheres simples chegando com suas cestinhas com oferendas para o seu ritual pessoal, fiquei um tempo assistindo uma delas fazer um puja lindo em frente a um Ganesha na porta do templo. Momento de intimidade espiritual profunda! Ela e o seu Deus, tão próximos. Ela tão entregue e serena. Sem multidões, sem ninguém pra assistir, sem intermediários, era apenas ela e Deus, ou seja, um só...uma união só possível pela fé profunda e absolutamente simples. Isso é Yoga!
Penso o quanto temos que intelectualizar a nossa fé, ou o quanto precisamos que ela seja testemunhada por outros, como se só assim ela de fato resistisse às nossas dúvidas. Sei lá...acho que tô viajando...mas existe algo de semelhante com a experiência como funcionário no meu quarto e com essa mulher no templo, que mexeram muito comigo! Talvez a simplicidade e a pureza que vi nos dois! Sinto-me abençoada por isso.
O grupo voltou agora à noite aos templos, para assistir um espetáculo de luzes e sons, depois saberei como foi para eles, eu fiquei aqui escrevendo para vocês. Amanhã viajaremos para Varanasi, e não vejo a hora de lá chegar e ver o que acontecerá com o grupo. Essa é a cidade mais forte de todo o nosso roteiro. É uma cidade sagrada para os hinduístas, budistas e mulçumanos, fica às margens do Ganges e normalmente mexe profundamente com as pessoas.
Ludmila Rohr