ULTIMO DIA
Ludmila Rohr
Namastê!
Despedimos-nos dos funcionários do hotel que foram gentilíssimos todo o tempo , assim como o pessoal da operadora que nos acompanhou aqui, estamos muito gratas e sentimos que fomos muito bem cuidadas. Preciso registrar uma história que o nosso guia nos contou sobre o jeito dos nepalis mais antigos. Perguntamos por que eles quando nos olham, baixam a cabeça? Ele me diz que eles são muito envergonhados, que somos muito grandes, que aparentamos muito poder e essa inclinação tem a ver com respeito.
Perguntei se o nosso jeito (que para mim ,parece extremamente arrogante), os afetam de alguma forma, se nós os desrespeitamos com o nosso jeito?....ele diz que não, eles acham que somos poderosos e...podemos qualquer coisa...Que vergonha, não? Sinto uma vergonha, porque de fato me parece que é assim que nos comportamos, como se pudéssemos tudo, algumas vezes percebo um descaso da nossa parte com eles, e até um descuido...Acho que é assim que nasce o preconceito racial, acho que é assim que as diferenças raciais e culturais se manifestam em nossas mentes e produzem comportamentos preconceituosos, ou atitudes de superioridade.
Não acredito em pecado, mas penso que se existe um, é o da superioridade...quando tratamos o outro, julgando pelas diferenças, como inferiores. A nossa dificuldade em aceitar a diferença reflete um medo histórico de desaparecer por conta delas. Como se tivéssemos que eliminar as diferenças, ou mesmo desqualificá-las, como se não o fizermos poderíamos ser eliminados. Como se tivéssemos que viver eternamente disputando algo, ganhando ou perdendo. Essa é uma forma muito cansativa de viver...sempre encontraremos diferenças...sempre estaremos julgando? Ou competindo?
Shanti, o nosso guia no Nepal, é um homem de 39 anos, casado, com dois filhos, que ama muito o seu país e o seu trabalho. Ele teve muita paciência conosco e sinto que em alguns momentos, nós o desrespeitávamos, ou até mesmo o ignorávamos enquanto ele cumpria a sua função...ele em momento nenhum reagia, só trabalhava e tentava ser mais gentil. O nosso motorista, tão educado, se divertia com as nossas bagunças..Quero agradecer ao povo nepali, representado por esses dois homens. Queria muito que tivéssemos a metade da educação e paciência deles. Muito obrigado!
Já estamos no aeroporto em Kathmandu...é muito estranho, muitas taxas, muitas revistas, mas esse ano foi muito tranqüilo em relação aos outros...tivemos que pagar muito caro, pelo excesso de peso o que não aconteceu em outros anos, mas não fomos importunados com averiguações detalhistas. So far, so good...Relatarei a volta, que sempre é mito cansativa e complicada, em todas as suas etapas. Nesse aeroporto tivemos quase 4h de atraso, isso significa que não teremos tempo livre em Delhi e faremos uma viagem muito longa, do Nepal até o Brasil.
Essa é uma volta complicada e cansativa, os humores são testados...a nossa resistência física, emocional e mental é testada...chegamos em Delhi (aeroporto internacional), nos, despedimos de Fernanda (Babananda )e Lili (Gurulili), que farão extensão na Índia. Elas foram incríveis e essa despedida me faz chorar. Ficamos 1:30h em um hotel, tempo de um banho, voltamos para o aeroporto(agora doméstico). Nesse momento nos despedimos de Beth, ela mora nos EUA e voará direto de Delhi, ela foi uma presença muito suave nesse grupo, choro outra vez. Voamos para Mumbay, trocamos em Mumbay do aeroporto doméstico para o internacional, uma verdadeira loucura, uma correria, porque estávamos atrasadíssimas. Emoções explodem para todos os lados, temo que as pessoas esqueçam tudo de bom que viveram...estou tensa, mas não posso deixar isso tomar conta de mim, nessa hora, me pergunto por que faço isso? Conseguimos. Será que as pessoas conseguem perceber o quanto elas são vitoriosas? Ou ficam presas ao lado ruim da história? Sempre fico muito feliz com os desafios vencidos, mas nem sempre as pessoas reagem assim...Cada um com a sua viagem...nada posso fazer com o que acontece dentro de cada um...
Voamos para a África do Sul...9h....voamos para o Brasil, mais 9:30h!!!!!
Difícil resistir...passadas todas tempestades emocionais, acho que esse é um grupo de vitoriosas, de vencedoras e de mulheres muito poderosas...
Escreverei um último diário, já da minha casa...finalizando mais esse ciclo...de prazeres e dores, de grandes aprendizados, de amizades que surgiram, de conquistas, de erros e acertos...finalizarei algo que na verdade nunca será de fato encerrado, pois, uma viagem como essa continua a reverberar por toda a nossa vida.
Até Salvador...48h viajando..estamos mortas, mas com certeza ao renascermos, seremos pessoas muito melhores!
Ludmila Rohr